Do Chão de Fábrica Às Passarelas: o Lugar do Jeans no Universo do Luxo 

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Não é eufemismo afirmar que a história do jeans se confunde com a evolução da indústria têxtil e do próprio mercado de trabalho. Antes de conquistar todo o apelo estético, ele se estabeleceu primeiramente como peça funcional entre os fazendeiros, mineradores e operários, por sua característica resistência e durabilidade. Pode-se dizer que o item conquistou diversos territórios até alcançar o último degrau fashion: um lugar de destaque na alta-costura. Apesar da origem italiana da peça, o Dia Mundial do Jeans é celebrado em 20 de maio, data em que a dupla americana Levi Strauss e Jacob Davis registrou a patente da primeira calça jeans, em 1873.

Desde então, o vestuário passou por uma série de variações e tendências. Em 2026, a peça já compôs a coleção Primavera/Verão 2027 da Gucci, a Cruise Collection 2027 da Dior, entre outros. Ele aparece tanto nas calças nas passarelas, como a estética do tecido denim como inspiração para outras criações – algumas, em sua maioria, mais sustentáveis.

O desfile da Valentino em 2023 é um dos exemplos mais marcantes desse impacto. Então dirigida por Pierpaolo Piccioli, a grife abriu a passarela com o que parecia ser uma singela calça de jeans e uma camisa branca. A peça, no entanto, tratava-se de uma seda bordada com mais de 80 tons diferentes de micro-contas de vidro para imitar com perfeição a textura e a lavagem de um jeans real.

DivulgaçãoTrompe l’oeil, Pierpaolo Piccioli abriu desfile com o que parecia uma camisa branca e uma calça jeans

No início do ano, essa mesma nuance da vestimenta também inspirou a linha limitada de maquiagem Denim Collection da Chanel, ultrapassando os limites das passarelas e adentrando o mundo da beleza. “Em vez de reproduzir o denim de forma literal, a coleção captura sua atitude — suas texturas, lavagens e brilho sutil”, explica o maquiador da Chanel Tyron Machhausen.

“Quando uma grande marca recria o denim em seda ou quando o upcycling transforma uma peça antiga em arte na passarela, o mercado está nos enviando um recado claro: o jeans deixou de ser o uniforme da padronização para se tornar a tela da nossa individualidade“, afirma Jussara Romão, a especialista em moda e coautora do livro O Jeans do Brasil.

As maisons seguiram três caminhos principais para incluir o jeans sem abrir mão da exclusividade.“A alfaiataria impecável, o trabalho artesanal e a subversão do próprio tecido”, lista Romão.

Atualmente, essas estratégias também não podem deixar de considerar a conscientização ambiental acerca da peça, já que para a produção de uma única calça jeans, são consumidos mais de 5 mil litros de água. As peças de jeans reaproveitados apresentadas por Jean-Paul Gaultier em seu último desfile, por exemplo, expõem como o trabalho artesanal se alinha com essa produção mais consciente.

Getty ImagesPeças esculturais em jeans de Jean-Paul Gaultier

“A indústria têxtil, que por muito tempo rodou no piloto automático da velocidade, entendeu que o futuro exige responsabilidade. O novo luxo e o novo casual convergiram para o mesmo ponto: a busca por processos limpos, pelo respeito à cadeia completa e pela valorização do design que resiste ao tempo“, conclui Romão.

Da rebeldia ao luxo: uma breve história do jeans

Na década de 1950, a peça foi apropriada por movimentos da contracultura e se tornou um símbolo de rebeldia. “Os figurinistas da época criaram uma identidade forte usando o jeans para os personagens contestadores de Marlon Brando em O Selvagem (1953), James Dean em Juventude Transviada (1955) e Elvis Presley em O Rei do Rock (1957)“, explica Romão.

Entre 1960 e 1970, foi a vez do movimento hippie se apropriar do jeans, com customizações, patches e bordados. Ela perdeu o gênero e virou a vestimenta oficial da juventude. No auge da ditadura militar no Brasil, vestir o jeans também se tornou uma forma sutil de expressar alinhamento a essa contracultura.

Em 1970, o denim estreou nas passarelas de luxo pela Yves Saint Laurent. Segundo Romão, a escolha têxtil da maison se inspirou nos movimentos hippies e protestos de maio de 1968 contra as estruturas sociais da época.

A entrada do jeans no mercado de luxo, no entanto, só foi aprovada por ninguém menos do que Anna Wintour, quase 20 anos depois desse desfile. A então editora-chefe da Vogue americana escolheu para sua capa de estreia no cargo uma modelo vestindo calça jeans desbotada da Guess e um casaco bordado com pedrarias da alta-costura de Christian Lacroix.

DivulgaçãoPrimeira capa da Vogue americana assinada por Anna Wintour: jeans em destaque

Romão explica que o selo de aprovação de Anna Wintour mostrou que “ali nascia a certeza de que misturar o simples com o luxo era possível”. A partir desse marco, foram incontáveis os itens que começaram a ditar as tendências e desejos do público.

Entre alguns dos momentos mais icônicos, a especialista lembra de quando Karl Lagerfeld reinterpretou o icônico casaco de tweed da Chanel na coleção de outono/inverno de 1991 usando o denim.

DivulgaçãoReinterpretação do casaco de tweed da Chanel

Anos depois, Tom Ford, na famosa coleção de verão de 1999 da Gucci, explorou o jeans com bordados manuais de penas, miçangas e recortes.

DivulgaçãoColeção de verão da Gucci, em 1999

Mais recentemente, em 2024, Matthieu Blazy também criou uma ilusão de ótica para apresentar calças que pareciam jeans desgastados pelo tempo. O material da peça, no entanto, era um couro nobuck estampado milimetricamente para imitar o denim.

DivulgaçãoPeça da segunda coleção assinada por Blazy para a Bottega Veneta

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