Amigos de Elke Maravilha negam abandono no fim da vida; entenda

Chico Felitti rebate críticas sobre fim da vida de Elke MaravilhaTV Brasil/Reprodução

O jornalista Chico Felitti, autor da biografia “Elke: Mulher Maravilha“, respondeu nesta quinta-feira (16) às acusações feitas por amigos da artista após entrevista ao programa Sem Censura. A advogada e cineasta Solange Maia afirmou que o biógrafo mentiu nas declarações sobre o fim da vida de Elke Maravilha durante a atração exibida na TV Brasil.

Declarações feitas pelo jornalista e biógrafo Chico Felitti durante participação no programa Sem Censura, exibido na quarta-feira (14) pela TV Brasil. O escritor e podcaster afirmou que a artista teria morrido no esquecimento e apresentou versões sobre a origem que foram prontamente rebatidas por quem conviveu com Elke

Ela morreu quase no esquecimento, num apartamento com mais de cem sacos de lixo dentro. Quando foram retirar o que ela tinha, saíram mais de cem sacos de lixo. Alguém que foi tão grande para o Brasil, um farol para tanta gente, ter terminado sem um fim digno“, disse Felitti durante o programa apresentado por Cissa Guimarães.

Durante a fala no programa, o jornalista também questionou a versão contada pela própria artista de que ela teria nascido na Rússia. “Isso é mentira. Ela nasceu na Alemanha, durante o período da Segunda Guerra Mundial, quando o país estava sob o regime nazista“, contou Felitti ao contestar a narrativa apresentada por Elke ao longo da vida. 

Elke Maravilha em ‘Carrossel 2’Divulgação

Reação de amigos e pessoas próximas

As declarações de Felitti provocaram reação de amigos e pessoas próximas da artista nas redes sociais logo após a exibição. A advogada e cineasta Solange Maia, amiga íntima de Elke e diretora do documentário curta-metragem “Elke no País das Maravilhas” de 2007, afirmou que as informações divulgadas pelo jornalista não são verdadeiras. 

Em entrevista ao Hugo Gloss, a cineasta disse: “Fiquei indignada (…). Como espalhar na mídia uma história tão ridícula e falsa? Elke não morreu no esquecimento. Ela nunca foi entrevistada por ele, nunca foi amiga dele. O apartamento dela era pequeno e não havia possibilidade de centenas de sacos de lixo. Ela tinha uma funcionária, a Evinha, que cuidava da casa e a mantinha sempre limpa“.

Ela continua: “É completamente falsa a afirmação dele (Chico Felitti). Se a mãe dela não tinha mais cidadania alemã, Elke não poderia mais, pelos caminhos normais, ter cidadania alemã. A lei não permitia isso. Eles só conseguiram esse documento por ‘baixo dos panos’, por negociações de família. Ela conseguiu esse documento e veio para o Brasil. Quando Elke perdeu a cidadania brasileira, ela ficou apátrida. Mas na Alemanha, já havia possibilidade de ter um documento por aquela lei ter caído em desuso. Ela, então, conseguiu um passaporte alemão. Ela nunca negou esse documento, mas não precisava ficar explicando a origem“.

Elke MaravilhaGuillermo Giansanti / Divulgação

Solange ataca a versão do biógrafo: “Quando o Chico foi fazer essa pesquisa, provavelmente por não entender de Direito ou não entender de História, ele foi no embalo de um papel. Sem procurar saber o que aconteceu de fato. Ele não entrevistou a Elke, não era amigo, não pode simplesmente falar sobre a vida de Elke e contar mentiras. Ele nunca esteve com ela, não conhece a verdade dela, nunca veio nenhuma informação da boca dela. Então é fácil ficar contando essas mentiras“.

Segundo a advogada em uma publicação no Instagram, Elke já havia explicado a origem do documento mencionado por Felitti durante conversas com amigos próximos. “Ele afirma que o pai era alemão. Que erro feio! O pai dela era russo e a mãe alemã. A Elke era minha amiga e de fato nasceu na Rússia. Havia um documento falso da Alemanha em virtude da importância da família. Sobre os parentes, ela mesma dizia ‘irmãos não são de sangue, são de alma’“, declarou Solange.

De acordo com Solange Maia, Fred era o único irmão próximo citado por Elke durante as conversas entre as duas. A advogada disse ainda a relação profissional que mantinha com a artista ao longo dos anos. Disse ter sido autorizada por Elke a realizar um filme sobre a vida, relatou que gravou os shows e afirmou que estava na Rússia gravando cenas do projeto quando a artista morreu.

Parece que esse senhor conseguiu holofote usando a imagem da Elke. É um absurdo destruir a imagem de uma pessoa tão verdadeira. Agora ele quer um filme? Ganhar dinheiro falando mal dela? LIXO !!!“, disse Solange ao defender a memória da amiga. Em comentário ao post da advogada, a cantora Karina Buhr também manifestou indignação com o conteúdo da entrevista concedida por Chico Felitti ao programa da TV Brasil.

Poxa, Solange, que maravilha você falar isso (…) ela sempre cheia de amigos, Fred um irmão que cuidava com todo amor! O cara falando de lixo, final indigno, entre outros absurdos! Um abraço imenso em você!“, escreveu Karina Buhr em solidariedade à advogada. A cantora fez questão de falar da presença de pessoas queridas ao redor da artista até o final da vida.

Com 21 mil seguidores no Instagram, o perfil @falandodeelke é outro que coleciona posts pedindo respeito à memória da artista que viralizaram nas últimas 24 horas. Um deles, que se referiu à entrevista de Felitti como “irresponsável e distorcida“, tem 11 mil curtidas e mais de 2 mil comentários de fãs e admiradores de Elke Maravilha indignados com as declarações.

A cantora Zélia Duncan escreveu nos comentários: “Puxa, Elke, uma pessoa incrível, merece ser tratada com amor, respeito e verdade. Que isso se esclareça logo.” A jornalista Astrid Fontenelle também se manifestou sobre o caso: “O que ele chama de lixo eram joias para ela“, afirmou em defesa da artista e do acervo pessoal mantido no apartamento.

Elke Maravilha sobre Silvio Santos: ‘Não gostava de mim’Reprodução

Outros relatos contestam versão do biógrafo

Autor do livro “Elke Maravilha – Além das perucas, saltos e batons“, Ton Garcia se pronunciou no perfil @falandodeelke sobre o tema. O escritor afirmou que informações incorretas vêm sendo disseminadas sobre a trajetória da artista e defendeu que apenas pessoas que conviveram com Elke deveriam narrar a história. Segundo Garcia, a artista nasceu na Rússia, em Leningrado, atual São Petersburgo.

Ton Garcia explicou ainda que, em razão do contexto da Segunda Guerra Mundial e de perseguições políticas sofridas pelo pai, Elke não conseguiu documentação russa. A mãe, alemã, obteve então documentos daquele país para que a filha pudesse viajar e sair do território russo após o conflito. A informação confirma a versão sempre defendida pela própria artista em entrevistas.

Ela nunca escondeu que usava passaporte alemão, mas sempre deixou claro que isso não a tornava alemã“, escreveu Ton Garcia ao esclarecer a questão documental. O autor do livro reiterou que Elke nasceu em 22 de fevereiro de 1945 em território russo, fato sempre mencionado pela artista ao longo da vida em diversas entrevistas e programas de televisão.

Elke Maravilha no ‘Agora É Tarde’Reprodução

O assessor Marcos Nienke também contestou a fala sobre a presença de lixo no apartamento da artista após a morte. A declaração foi publicada nas redes sociais. O profissional esteve presente no apartamento no dia do enterro da artista e garantiu que as condições eram diferentes das descritas.

Eu estive no apartamento da Elke, no dia do seu enterro, juntamente com o irmão dela, Frederico, a irmã, Marilia, e sua sobrinha Natacha, e posso afirmar que estava tudo limpo e arrumado. Elke não era acumuladora de lixo, seu apartamento era cheio de peças de arte, quadros e seus figurinos, ele se refere ao acervo dela como lixo? Muito irresponsável a fala deste senhor“, declarou Marcos Nienke.

Em publicação nas redes sociais, o DJ e escritor Zé Pedro também se posicionou contra as declarações de Chico Felitti. Ao comentar a tentativa de enquadrar a vida de Elke Maravilha em interpretações definitivas, ele afirmou que a artista jamais permitiu que alguém a definisse e que foi do início ao fim a tradução mais radical de si mesma.

Elke MaravilhaGuillermo Giansanti / Divulgação

Elke Maravilha jamais permitiu que alguém a definisse. Ela foi, do início ao fim, a tradução mais radical de si mesma. Uma mulher que viveu e morreu como quis, sem jamais caber na análise terceirizada, moralista ou tardia de quem tenta hoje organizar sua vida em conceitos ‘biográficos’“, disse Zé Pedro no post.

Convivi intensamente com Elke e fui admirador atento de sua trajetória e de sua liberdade. E jamais, como alguns que agora se colocam no papel de oráculos póstumos, tive a ousadia de decretar verdades definitivas sobre seu modus vivendi. Elke não se explicava. Ela existia. É profundamente lamentável que não esteja mais entre nós — em todos os sentidos —, mas sobretudo por não poder rebater, com sua inteligência ferina e seu riso demolidor, o festival de absurdos travestidos de verdade absoluta que ouvimos nessa entrevista sensacionalista“, escreveu o DJ.

Elke MaravilhaGuillermo Giansanti / Divulgação

Resposta do jornalista às críticas

Nesta sexta-feira (16), o jornalista Chico Felitti rebateu as críticas às falas em perfil no Instagram e defendeu o trabalho realizado. “Eu vi que deu uma viralizada de um trecho da minha participação no ‘Sem Censura: O trecho que viralizou foi falando sobre o fim da vida da Elke Maravilha. Escrevi um livro sobre a Elke e muita gente questionou o que eu disse. O que eu posso dizer é que tudo ali é verdade e é comprovável“, afirmou o biógrafo.

Chico deu detalhes sobre as histórias que contou no programa apresentado por Cissa Guimarães na TV Brasil. “Eu tenho a certidão da Elke da Alemanha, de uma cidade pequena no centro da Alemanha, apesar de ela falar que tinha nascido na União Soviética. A história da retirada dos itens da casa dela, foram sacos e mais sacos mesmo, de coisas que alguns chamam de acúmulos, outros vão dizer que ela era uma colecionadora, mas tinha de tudo, perucas, objetos que ela levou pelo mundo, tinha muita roupa“, declarou.

Chico Felitti é o criador do podcast A CoachCamila Svenson/Divulgação

O jornalista explicou também o comentário sobre o fim da vida de Elke Maravilha e as dificuldades enfrentadas pela artista. “A questão de ela ter terminado sozinha, valeria mais contexto, mas era o que cabia no programa. Ela tinha um ressentimento muito grande pela falta de trabalho que ela teve no fim da vida. Ela não tinha reconhecimento, não tinha dinheiro para pagar um plano de saúde, por exemplo. Ela estava com problemas financeiros sim e sentindo que faltou reconhecimento“, afirmou Felitti.

O jornalista voutou a defender que estava falando a verdade: “Eu vejo tudo isso que está acontecendo como uma homenagem a ela. Ela era uma pessoa tão amada, tão reverenciada que as pessoas querem proteger a imagem dela. Essa proteção é o tamanho do amor que as pessoas sentem por ela. Mas um biógrafo precisa trabalhar com fatos, o que ele investiga e descobre. Entrevistei mais de 100 pessoas para esse livro. Na época que ele saiu, nada nunca foi contestado pela família, por mais que a família não quisesse que ele saísse.”

Elke Maravilha e Pedro de Lara no ‘Show de Calouros’Reprodução

Ele continua: “É o meu trabalho, é trazer uma narrativa mais próxima possível dos fatos. E a realidade é inegociável. Sinto muito se alguns amigos não gostam, se discordam, mas tudo o que está lá é comprovável. E me comove esse amor e essa defesa que as pessoas têm pela Elke, por isso mesmo ela merece todo tipo de reconhecimento em filmes e musicais“, concluiu.

Elke Maravilha morreu em 16 de agosto de 2016, aos 71 anos, no Rio de Janeiro. A artista estava internada após uma cirurgia para tratar uma úlcera e também enfrentava complicações de saúde relacionadas à diabetes e a problemas cardíacos. 

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