‘Governo brasileiro precisa proteger a indústria’, diz presidente da Nissan ao defender taxas para carros chineses

Christian Meunier, presidente da Nissan para as Américas

divulgação/Nissan

Em 2025, o mercado brasileiro foi tomado por carros chineses importados, o que gerou tensões com as fabricantes que já produzem no país. Para Christian Meunier, presidente da Nissan nas Américas, o governo brasileiro deveria adotar medidas para proteger a indústria nacional por meio de tributação.

“No fim das contas, o governo brasileiro precisa proteger a indústria no Brasil, as pessoas que trabalham no Brasil e a cadeia de suprimentos no Brasil”, disse Meunier, em entrevista a um grupo de jornalistas brasileiros do qual o g1 fez parte.

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“Não faz sentido permitir que carros importados sejam despejados no Brasil e compitam com os carros produzidos localmente.”

O executivo citou uma medida recente do México como exemplo. O país passou a aplicar taxas sobre importações da China e de outros parceiros comerciais, assim como fez o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A medida não impacta as relações mexicanas para o Brasil no setor automotivo. Os produtos seguem isentos de taxas, conforme o acordo ACE-55, firmado em 2002 entre o México e o Mercosul.

Para os demais, as tarifas variam conforme o tipo de produto e vão de 5% a 50%, atingindo 1.463 itens de 17 setores. Entre eles estão carros e autopeças, vestuário, plásticos, produtos siderúrgicos e eletrodomésticos, com foco em países com os quais o México não tem acordos comerciais firmados.

“Há a necessidade de eles [o México] reagirem a isso: ‘Ok, se você produzir um certo volume de carros no México, então estará isento para alguns carros que importar da China; mas, se não produzir no México, terá de pagar uma tarifa de 50%’. E eu acho que o Brasil deveria fazer o mesmo”, disse o executivo.

Fábrica da Nissan em Resende (RJ)

Divulgação/Nissan

Meunier afirma que a localização da produção é parte importante do negócio da Nissan. Ele relembrou a experiência anterior na Stellantis, onde foi presidente global da Jeep e integrou o comitê executivo do grupo, que também reúne a Fiat.

“A força da Fiat e da Jeep é ser local. É isso que estamos fazendo sob a minha liderança: localizar o máximo possível. E localizar não significa apenas produzir, mas também ter peças fabricadas no Brasil. Esse é o segredo para ser bem-sucedido aqui”, afirma Meunier.

A Nissan mantém uma fábrica no Brasil desde 2014, em Resende (RJ). No complexo industrial, a marca produz modelos como os SUVs Kicks e Kait.

Os sedãs Versa e Sentra, além da picape Frontier, continuam sendo importados do México. Ainda assim, a Nissan enxerga a fábrica de Resende como um polo de exportação, com foco em países vizinhos. Para isso, investiu recentemente R$ 2,8 bilhões na planta brasileira.

Parte desse investimento foi destinada ao desenvolvimento e à produção do novo Nissan Kait. Além de abastecer o mercado brasileiro, a Nissan também produz o SUV para mais de 20 países da América Latina.

Nissan Kait é um Kicks Play evoluído para peitar VW Tera, Fiat Pulse e Renault Kardian

Expansão local ocorre em meio a cortes profundos

A Nissan passa por uma reestruturação profunda, que incluiu a troca da equipe de diretores globais. Segundo Meunier, a mudança busca resgatar o “espírito de luta” da marca.

“Basicamente, toda a equipe executiva mudou, e isso era necessário. Era necessário porque eu acho que a empresa se perdeu por um período, e uma nova energia era exigida para recuperar a força e o espírito de luta da Nissan”, disse o presidente.

Segundo o executivo, o plano tem foco em eficiência, redução de custos fixos e variáveis e melhor aproveitamento dos mercados estratégicos.

Na região das Américas, a empresa conseguiu reduzir US$ 1 bilhão em custos fixos e outros US$ 1 bilhão em custos variáveis entre os anos fiscais de 2024 e 2025.

Os custos fixos incluem despesas com fábricas, pessoal, programas e publicidade, enquanto os custos variáveis estão diretamente ligados à produção dos veículos, como peças e insumos.

De acordo com Meunier, a redução de custos ocorreu a partir de alguns pontos-chave:

Redução do volume global de produção: o executivo afirma que a fabricação anual caiu de 5,5 milhões para 3,2 milhões de veículos nos últimos seis anos;

Redução no tempo de desenvolvimento de veículos: a Nissan vem encurtando o ciclo de criação de novos produtos de seis anos para 38 meses, o que reduz significativamente os custos de engenharia e de mão de obra;

Localização da produção: conhecida como “produzir onde se vende”, a estratégia foi essencial para reduzir riscos ligados a tarifas e variações cambiais, além de melhorar a logística. Nos EUA, por exemplo, a produção local passou de 44% para 65% em apenas um ano.

Nissan sofre para crescer no Brasil

A Nissan mantém desempenho praticamente estável desde 2020, quando respondeu por 3,13% dos emplacamentos de veículos zero km no Brasil. Em 2025, a participação da marca fechou em 3,05%. Os dados são da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

O cenário poderia ser considerado positivo, não fosse o fato de a Nissan ter sido superada por Honda e BYD em 2024 — movimento que se manteve nos dados de janeiro deste ano, com os seguintes números de emplacamentos:

BYD: 6,03% das vendas, com 9.801 emplacamentos;

Honda: 4,14% das vendas, com 6.722 emplacamentos;

Nissan: 2,81% das vendas, com 4.559 emplacamentos.

O Kicks, que chegou a ocupar a quarta posição entre os SUVs mais vendidos do Brasil em 2024, terminou 2025 na sétima colocação. A queda ocorreu no período em que o modelo teve o preço reajustado após a atualização:

Volkswagen T-Cross: 92.837 emplacamentos;

Hyundai Creta: 76.156 emplacamentos;

Jeep Compass: 61.227 emplacamentos;

Honda HR-V: 61.227 emplacamentos;

Chevrolet Tracker: 60.867 emplacamentos;

Toyota Corolla Cross: 59.674 emplacamentos;

Nissan Kicks: 58.388 emplacamentos.

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