Disputa de marcas: meme “6-7” vai parar na Justiça dos EUA

Menino que viralizou o meme “six seven”Reprodução

O meme “6-7”, que viralizou entre adolescentes e tomou conta das redes sociais nos últimos meses, agora também virou assunto na Justiça dos Estados Unidos. A fabricante de alimentos Perdue Foods acusa uma concorrente de copiar o conceito de seus nuggets inspirados na tendência viral da internet.

A empresa entrou com uma ação em um tribunal federal da Virgínia contra a Soules Foods. Segundo a Perdue, a rival copiou a identidade visual dos seus “6- 7 Chicken Nuggets”, lançados este ano de 2026.

Perdue Nugget ‘6-7’Divulgação

Os nuggets congelados e empanados da Perdue, moldados nos formatos dos números 6 e 7, chegaram ao mercado em abril. Um mês depois, o produto já era vendido em lojas do Walmart em todo o país. A embalagem tem um visual bem chamativo, com cores vibrantes, rabiscos, estrelas, um rosto sorridente e os nuggets sobre um par de mãos em formato de concha. A proposta é seguir a identidade do meme e apostar em um estilo que converse com o público mais jovem.

O visual foi inspirado no meme “6-7”, que consiste na repetição dos números 6 e 7, geralmente acompanhada por um movimento com as mãos parecido com um malabarismo.

A origem do meme costuma ser atribuída à música “Doot Doot (6 7)”, do rapper Skrilla. A tendência rapidamente se espalhou pelas redes sociais e virou uma febre entre os adolescentes, sendo usada em brincadeiras nas escolas e até em atividades propostas por professores. No último jogo da Seleção Brasileira contra o Japão, o volante Casemiro também entrou na onda e fez o gesto durante a comemoração do gol de empate, em homenagem ao filho, assim como outros jogadores já haviam feito anteriormente. 

A disputa começou quando a Soules Foods anunciou, em 7 de junho (6/7 no formato de data utilizado nos Estados Unidos), que também lançaria nuggets empanados em formato dos números 6 e 7. 

Soules Kitchen 67 Chicken Nugget Divulgação

Assim como o produto da Perdue, a embalagem aposta em um visual descontraído, com os números sendo segurados por mãos em desenho animado, um fundo repleto de rabiscos e emojis sorridentes. O pacote também traz uma ilustração de Maverick Trevillian, conhecido como o “67 Kid” e apontado como um dos responsáveis por popularizar o meme. Para o lançamento, a Soules anunciou a contratação do adolescente como Chief MEME Officer (Executivo de Marketing de Comidas Matemáticas). Segundo a empresa, ele participou do desenvolvimento da campanha durante meses para garantir que o produto mantivesse a identidade e o espírito do meme “6-7”. 

Na ação apresentada na semana passada, a Perdue afirma que a concorrente copiou de forma deliberada diversos elementos do produto, como o nome “6 -7”, os nuggets em formato dos números, as mãos ilustradas abaixo deles, além das estrelas em estilo de rabisco e dos rostos sorridentes.

A Soules Foods, no entanto, nega as acusações. Em nota, a empresa informou que discorda das alegações da Perdue e afirmou que seus nuggets começarão a ser vendidos nas redes Kroger e Aldi em todo o país a partir deste mês.

Os pedidos de registro de marca da Perdue para a expressão “6 -7” e para a ilustração das mãos posicionadas abaixo dos nuggets ainda estão sendo analisados pelo Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos (USPTO).

Na ação, a fabricante pede que a Justiça impeça a Soules de fabricar, divulgar ou vender nuggets utilizando o nome “6 7” ou uma identidade visual semelhante. A empresa também quer que todas as embalagens e materiais publicitários relacionados ao produto sejam recolhidos e destruídos.

Meme pode ter proteção legal?

Apesar da ação, especialistas afirmam que garantir exclusividade sobre nuggets em formato de números pode não ser uma tarefa simples.

Segundo Alexandra Roberts, diretora acadêmica do Centro de Direito, Informação e Criatividade da Faculdade de Direito da Universidade Northeastern, uma empresa não pode impedir que outras produzam alimentos apenas por utilizarem formatos parecidos.

Além disso, a Soules tem  parceria com Maverick. Para a especialista, essa associação pode ajudar a diferenciar os produtos da marca e reduzir a possibilidade de confusão entre os consumidores.

A Perdue também afirma que o lançamento do produto da rival já causou confusão entre os clientes. Como exemplo, a empresa cita um comentário publicado no Instagram em que um usuário afirmou ter visto os nuggets “6-7” da Soules no Walmart semanas antes do lançamento.

Mesmo assim, Alexandra Roberts considera que esse exemplo não é suficiente para comprovar uma confusão. Segundo ela, o argumento mais forte da Perdue está na semelhança das ilustrações das mãos presentes nas embalagens. Ainda assim, esse elemento faz parte do próprio meme e também pode ser usado como argumento de defesa pela Soules.

Ela explica ainda que ninguém pode ser dono de um meme. Alguns deles são baseados em obras protegidas por direitos autorais e, por isso, podem ter algum tipo de proteção legal. No caso do “6-7”, porém, ela afirma que isso não se aplica.

Segundo Alexandra, quando um meme fica diretamente associado a uma única pessoa, ela pode ter mais chances de reivindicar determinados direitos sobre seu uso. No entanto, o “6-7” surgiu antes de Maverick ganhar notoriedade e não está ligado exclusivamente ao adolescente.

De forma geral, a especialista demonstra ceticismo sobre as chances de a Perdue vencer o processo. Para ela, conceder exclusividade sobre esse tipo de produto poderia criar um monopólio que não é o objetivo da legislação de marcas.

O que começou como uma simples “Trend” nas redes sociais acabou saindo da internet. Agora, será a Justiça dos Estados Unidos que decidirá se a semelhança entre os produtos é uma cópia ou apenas mais uma inspiração em um dos memes mais comentados nesses últimos meses. 

*Estagiária sob supervisão

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