Quando o Pix foi lançado, no fim de 2020, rapidamente ficou evidente que ele atendia a muitas das mesmas situações de uso do cartão de débito: pagamentos do dia a dia diretamente da conta bancária.
Quase seis anos depois, porém, os números do Banco Central mostram um cenário mais complexo do que a simples substituição de um meio de pagamento pelo outro.
Embora o Pix tenha registrado um crescimento explosivo, o cartão de débito manteve praticamente o mesmo volume financeiro movimentado ao longo dos últimos anos.
Entre o primeiro trimestre de 2021 e o quarto trimestre de 2025, as transações oscilaram entre R$ 204,8 bilhões e R$ 264,1 bilhões por trimestre, encerrando o período em R$ 253,8 bilhões.
No mesmo intervalo, o Pix saltou de R$ 625 bilhões para mais de R$ 10,2 trilhões por trimestre, enquanto o cartão de crédito passou de R$ 310 bilhões para R$ 832 bilhões, segundo o BC.
Os números revelam outro movimento curioso.
Entre o quarto trimestre de 2020 e o mesmo período de 2025, o número de pagamentos realizados com cartão de débito aumentou de 3,48 bilhões para 4,30 bilhões — alta de cerca de 23%.
No mesmo período, porém, sua participação no total de transações caiu de aproximadamente 27% para 10%, refletindo o crescimento muito mais acelerado do Pix, que passou de 1,4% para mais de 54% de todas as operações registradas no sistema de pagamentos brasileiro.
Ou seja, o débito continua sendo amplamente utilizado pelos brasileiros, mas deixou de acompanhar o ritmo de expansão observado em outras modalidades.
Agora, esse equilíbrio pode começar a mudar.
Pix por aproximação pode mudar o jogo
Em abril deste ano, a Samsung passou a oferecer o Pix por aproximação em sua carteira digital no Brasil.
A Apple também caminha na mesma direção. A empresa discute, no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a abertura da tecnologia NFC do iPhone para que instituições financeiras possam oferecer pagamentos por aproximação utilizando o Pix.
Até então, um dos principais diferenciais do cartão de débito era justamente a praticidade no ponto de venda físico. Bastava aproximar o cartão — ou o celular com a carteira digital — da maquininha.
O Pix, por outro lado, ainda exige da maioria dos usuários abrir o aplicativo do banco, autenticar a operação e concluir a transação, tudo dependendo de conexão com a internet.
Com essa barreira praticamente eliminada, surge uma nova pergunta: qual será o papel do cartão de débito daqui para frente?
A aposta da Visa: segurança e proteção
Para a Visa, a resposta passa menos pela velocidade da transação e mais por atributos que, segundo a companhia, foram pouco explorados pela indústria nos últimos anos.
“Talvez o débito tenha ficado um pouco esquecido ao longo da novidade do Pix e do crescimento do e-commerce [onde o cartão de crédito é consolidado]. Mas agora ele está ganhando tração em termos de segurança e praticidade”, afirma a vice-presidente de Marketing da Visa no Brasil, Carla Mita.
Segundo a executiva, um dos diferenciais do débito está na própria arquitetura do sistema de cartões.
Enquanto o Pix liquida as operações praticamente em tempo real, as compras realizadas no débito percorrem o chamado modelo de quatro partes, que envolve emissor, adquirente, bandeira e estabelecimento comercial.
Nesse arranjo, explica Carla, o banco emissor dispõe de mecanismos para interromper ou contestar determinadas operações antes da liquidação definitiva dos recursos.
“Se pegaram meu cartão, foram a um comércio e conseguiram comprar, eu vejo que entrou um débito na minha conta e aciono o banco. Ele [banco] consegue falar: ‘espera aí, não repassa o dinheiro’. No Pix, o modelo é diferente. Quando há fraude, o dinheiro passa muito rápido por várias contas, e esse circuito da volta é muito complicado”, afirma.
Na avaliação da executiva, o débito também pode oferecer vantagens em situações nas quais o consumidor prefere não utilizar o celular.
“Às vezes você está em pleno Carnaval. Vai incentivar a pessoa a levar o celular? A gente sabe que existe o risco de roubo. O cartão acaba tendo esse lado da segurança. Você paga direto da conta, do mesmo jeito, sem precisar levar o telefone.”
Foco no e-commerce
Outro ponto destacado pela Visa é o comércio eletrônico.
Segundo Carla, enquanto o cartão de crédito evoluiu rapidamente com a tokenização e a integração às carteiras digitais, o débito acabou ficando em segundo plano nos investimentos da indústria.
Agora, a aposta da empresa é no Click to Pay, tecnologia que busca simplificar o checkout do débito online.
“O e-commerce começou a perceber que o Pix também tem fricção. Você precisa abrir o aplicativo do banco, autenticar a operação… A experiência de uso não é boa. Estamos trabalhando para levar o débito de volta a esse ambiente”, afirma.
O verdadeiro desafio agora
Se o cartão de débito ainda tem vantagens competitivas, o maior desafio pode não ser tecnológico, mas sim de comunicação.
Durante anos, bancos e bandeiras concentraram seus esforços em promover cartões de crédito e programas de benefícios, por exemplo.
O débito ficou em segundo plano. O resultado é que muitos consumidores sequer sabem que podem cadastrá-lo na carteira digital do celular ou desconhecem atributos como as camadas adicionais de proteção em caso de fraude.
Na avaliação deste colunista, há ainda uma hipótese que merece atenção de emissores e bandeiras.
Desde o lançamento do Pix, a comunicação em torno do sistema sempre reforçou a gratuidade para o consumidor. Será que, por contraste, bancos e bandeiras deixaram de comunicar que o cartão de débito também pode ser utilizado sem custo nas mesmas situações?
Com milhões de brasileiros bancarizados após a chegada do Pix, é possível que parte dessa geração simplesmente nunca tenha desenvolvido o hábito de pagar com débito.
No dia a dia, não é raro ver pessoas abrindo o aplicativo do banco na fila do supermercado ou da farmácia para fazer um Pix, quando poderiam simplesmente aproximar o cartão de débito.
Com o Pix por aproximação eliminando essa diferença de conveniência, talvez tenha chegado a hora de a indústria voltar a explicar por que o débito ainda merece um espaço na carteira, seja ela física ou digital.









