Santander desafia cartões concorrentes para conquistar clientes

Cartões Santander podem ter pontuação aumentada em programa de relacionamentoImagem editada com IA

O Santander decidiu transformar a pontuação dos cartões de crédito em uma espécie de desafio público aos concorrentes. A partir desta sexta-feira (23), o banco disponibiliza um simulador que compara o potencial de acúmulo de pontos de cartões de diferentes instituições com o dos produtos do Santander. A ferramenta permite informar o cartão utilizado e o gasto mensal para estimar quanto o cliente poderia acumular em um ano caso optasse por um produto do banco.

A iniciativa integra a estratégia do Santander Select, segmento voltado ao público de alta renda, e dá continuidade ao Santander Rewards, programa que permite acelerar em até 50% a pontuação dos cartões elegíveis com base no nível de relacionamento do cliente com a instituição. A mensagem comercial é direta: seus gastos podem render mais se você escolher um cartão Santander.

O simulador considera cartões de instituições como Banco do Brasil, Bradesco, BTG Pactual, Itaú, Nubank e XP. Não há, entretanto, alternativas importantes, como o Caixa Ícone, Itaú Personnalité World Legend, C6 Graphene World Legend, entre outras. A ausência limita o alcance da comparação, especialmente porque são produtos que também disputam clientes interessados em pontuação e benefícios premium.

Santander transforma pontos em argumento para fisgar clientes

A iniciativa ocorre no momento em que bancos buscam cada vez mais clientes ricos. Em julho de 2026, os segmentos de alta renda e private banking concentravam R$ 6,2 trilhões investidos por pessoas físicas no país, cerca de dois terços do total, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

Além dos gastos com cartões, esses clientes representam oportunidades de receita com investimentos, crédito, seguros e outros serviços financeiros. Conquistar esse público permite aos bancos ampliar o relacionamento e diversificar suas fontes de receita.

O cartão de crédito é a espinha dorsal dessa estratégia porque acompanha os gastos cotidianos do cliente e cria oportunidades de relacionamento frequente com a instituição. Ao oferecer mais pontos para quem concentra movimentações financeiras no banco, o Santander quer que seu programa de recompensas seja o verdadeiro incentivo para que o consumidor mantenha no banco parte ou a totalidade de sua vida financeira.

O Santander Rewards é fundamental nesse contexto. O programa estabelece níveis de relacionamento que podem elevar a pontuação dos cartões elegíveis em 15%, 30% ou até 50%, conforme as condições aplicáveis. Entre as ações consideradas estão o recebimento de salário, o cadastro de chaves Pix, os investimentos e a utilização de outros serviços bancários.

Segundo o banco, o Rewards ultrapassou 700 mil adesões em quase cinco meses de operação. O número indica alcance relevante para a iniciativa, embora não revele quantos participantes atingiram os níveis mais altos, quantos concentraram efetivamente suas movimentações no Santander ou qual foi o impacto financeiro do programa para a instituição.

A iniciativa também ajuda a compreender outros movimentos recentes. Em agosto, o Santander lançou o Visa Infinite Private, cartão voltado a clientes de altíssimo patrimônio, com pontuação de 6 pontos por dólar em compras nacionais e 8 pontos no exterior. O produto reúne benefícios de viagem, acesso a salas VIP e serviços personalizados, reforçando a tentativa do banco de ampliar sua competitividade no topo do mercado.

O Santander também encerrou a parceria pouco interessante que tinha com a American Express para emissão de cartões no Brasil. Os cartões Gold e The Platinum Card começaram a ser descontinuados em setembro, enquanto o Centurion teve o encerramento previsto para este mês. A instituição passou a direcionar esses clientes para alternativas de seu próprio portfólio.

O que o simulador do Santander compara

A ferramenta permite estimar a pontuação anual com base nos gastos informados pelo usuário e nas regras dos cartões selecionados. Também transforma o saldo potencial em exemplos de viagens, indicando quantos trechos poderiam ser resgatados em programas parceiros. Acesse o simulador aqui.

“Queremos estimular uma conversa mais transparente sobre o valor que os programas de fidelidade podem gerar na vida das pessoas. O simulador transforma uma informação que muitas vezes parece abstrata em algo simples e visual, permitindo que o consumidor compare alternativas e entenda o potencial dos seus gastos no dia a dia”, afirma o diretor de Marketing do Santander Brasil, Guilherme Bernardes.

O resultado, porém, exige atenção a uma premissa importante: a simulação considera o nível máximo do Santander Rewards, que oferece aceleração de 50% na pontuação dos cartões elegíveis. Para alcançar essa faixa, o cliente precisa cumprir as condições de relacionamento estabelecidas pelo programa.

Isso significa que o simulador apresenta um cenário de pontuação máxima, e não necessariamente o resultado que um novo cliente obterá ao contratar um cartão Santander. Quem não alcançar o nível exigido terá uma pontuação inferior à apresentada na simulação.

A própria ferramenta informa que os cálculos são estimativas, baseadas nas regras vigentes dos produtos e programas na data da consulta. As projeções de viagens também dependem de disponibilidade, datas, condições de resgate e quantidade de pontos exigida pelos parceiros. Portanto, o número de trechos exibido não representa uma garantia de emissão.

Além disso, a seleção de cartões concorrentes parece mirar justamente nos produtos que o Santander pretende enfrentar na disputa por clientes, possivelmente aqueles com maior presença entre o público de alta renda. A escolha favorece a comparação com os cartões do próprio banco, como seria esperado de uma ferramenta de marketing.

Isso não invalida o simulador, mas delimita o que ele consegue demonstrar. A ferramenta calcula o potencial de acúmulo sob as premissas definidas pelo Santander. Para concluir qual cartão oferece o melhor retorno, seria necessário considerar também a anuidade efetivamente paga, os critérios de isenção, os benefícios utilizados e o valor que o cliente consegue extrair dos pontos acumulados.

É possível, entretanto, afirmar que essa transparência demonstra que o banco está confiante na atratividade do seu portfólio de cartões premium. 

Disputa pela alta renda vai além da pontuação

Os bancos continuarão usando a pontuação como instrumento para atrair clientes de alta renda e conquistar a principalidade, conceito que define a instituição financeira de referência na vida do consumidor. Acumular mais pontos com os gastos habituais é uma vantagem fácil de comunicar e comparar. Mas, à medida que esse benefício se dissemina entre os cartões premium, a capacidade de gerar pontos tende a perder força como diferencial isolado. A disputa passa a envolver a qualidade de toda a experiência oferecida ao cliente.

Para esse público, ter um bom cartão é apenas parte da relação com o banco. Conveniência, agilidade na resolução de problemas, atendimento eficiente e acesso a experiências relevantes também pesam na percepção de valor.

A tecnologia amplia as possibilidades — serviços mais integrados, processos menos burocráticos e soluções personalizadas podem reduzir o esforço necessário para administrar o dinheiro. O próximo passo é antecipar necessidades, identificando oportunidades e oferecendo soluções no momento adequado, sem transformar cada interação em uma nova venda.

Essa mudança exige mais do que ampliar o catálogo de benefícios. Um banco pode oferecer salas VIP, pontuação elevada e acesso a eventos exclusivos, mas comprometer a experiência com processos complexos, atendimento lento ou dificuldades para resolver questões simples. Da mesma forma, vantagens vinculadas a investimentos e à concentração de serviços só fortalecem o relacionamento quando o cliente percebe valor suficiente para justificar essa escolha.

O Santander avança ao tornar seus cartões mais competitivos com o Rewards e ao comunicar essa proposta por meio de um simulador. A iniciativa ajuda a disputar a atenção do consumidor, mas a fidelização será construída ao longo do relacionamento.

No mercado de alta renda, conquistar o cliente pelo cartão é uma etapa; tornar-se a instituição à qual ele recorre por conveniência, confiança e qualidade de serviço é um desafio mais amplo. É nessa capacidade de simplificar a vida financeira e oferecer experiências relevantes de forma consistente que os bancos terão de buscar seus próximos diferenciais.

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