Mais uma vez, escrevo que esta coluna não é política, mas, quando existem fatos diferentes, mesmo que esbarrem na política, eu conto a vocês e procuro não mostrar lados ideológicos.
O que vou contar aconteceu entre os anos 1970 e 1980, quando os militares criaram a censura na TV.
Nada iria ao ar sem que um censor aprovasse.
No caso da TV Globo, o censor era um coronel do Exército, que tinha orgulho de ser censor.
Ele era respeitado pelos vizinhos do prédio porque era censor.
A mulher era invejada pelas amigas porque o marido era censor da TV Globo.
Os empregados da casa eram felizes porque trabalhavam para o censor da TV Globo.
Então, esse coronel sempre cortava coisas da TV Globo para mostrar que estava trabalhando.
Um dos casos foi a novela O Bem-Amado, em que o coronel mandou cortar todas as falas referentes ao ator Paulo Gracindo, que era chamado de coronel na novela.
Então, passou a ser proibido que os personagens dissessem que o Bem-Amado era coronel.
Era uma expressão nordestina que se referia ao personagem.
A palavra “coronel”, usada para se referir a muitos fazendeiros de cacau que viviam no Nordeste, teve origem em uma época em que o Exército brasileiro estava em situação pior do que a de hoje. Para conseguir dinheiro para o Exército, o governo vendeu títulos de coronel a fazendeiros para pagar as contas da instituição.
Mas o censor proibiu que se falasse a palavra “coronel” na novela.
O caso mais estranho aconteceu no Jornal Nacional.
Por alguma razão, o censor chegou atrasado à TV Globo, na hora do Jornal Nacional, e não teve tempo de ver antecipadamente as notícias do telejornal.
Então, em uma conversa com o diretor de jornalismo, Armando Nogueira, o censor queria saber como deveria proceder.
Armando, com a maior naturalidade, mostrou um botão qualquer ao censor e disse que, se ele quisesse, poderia apertar o botão e tirar a emissora do ar.
O censor passou o jornal inteiro com o dedo no botão e não teve coragem de apertá-lo, com medo de que algum daqueles generais que gostavam do Jornal Nacional o tirasse do cargo caso ele desligasse a emissora.
Quanto ao botão, era um botão qualquer, que jamais tiraria a TV Globo do ar.
Mas todo o pessoal do jornalismo da TV Globo deu muita risada.








