O último debate presidencial antes do segundo turno, transmitido pela TV Globo na noite de sexta-feira (23), colocou em confronto direto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Monitoramentos em tempo real do projeto flaviomentiu.com.br, respaldados por apurações do ICL Notícias e de agências como Agência Lupa e UOL Confere, registraram 75 declarações falsas ou distorcidas feitas pelo senador ao longo do programa.
Segurança, milícias e atritos no estúdio
No bloco sobre “retomada de territórios”, o confronto girou em torno da atuação do crime organizado no Rio de Janeiro. Flávio defendeu o endurecimento policial contra o narcotráfico, mas foi confrontado por Lula com a presença no estúdio de dona Clara, mãe da menina Ana Clara – morta aos cinco anos por disparo de fuzil de um policial.
O presidente cobrou a atuação de bastidores do senador para tentar barrar o júri popular do agente e associou a trajetória política do adversário a grupos milicianos fluminenses. Flávio rebateu afirmando combater todas as facções ilegais e acusou o adversário de distorcer sua atuação.
Na área social, Lula lembrou que Flávio foi o único deputado na Alerj a votar contra a ampliação da licença-maternidade. O senador confirmou o voto, justificando que temia impacto na contratação de mulheres e que mudou de posição após a paternidade. Lula criticou o argumento e defendeu a perenidade dos direitos trabalhistas.
O debate registrou ainda momentos de atrito direto quando Flávio chamou o adversário de “nove dedos”. Lula rebateu recordando a perda do dedo em acidente operário aos 17 anos e contrapôs sua origem metalúrgica à carreira de Flávio, criticando sua ascensão baseada em estruturas familiares e políticas, o que levou o mediador William Bonner a intervir para conter o auditório.
Caso Banco Master, desafio de sigilos e regularização em Angra
No confronto econômico, Lula abordou notícias sobre a interlocução do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, investigado por suspeitas de fraude e lobby. Flávio negou qualquer ligação societária ou ilícita e respondeu apontando acusações contra familiares de Lula.
Em seguida, o petista desafiou Flávio a ir a um cartório e à Justiça na manhã seguinte para abrir simultaneamente todos os sigilos bancários, fiscais e telefônicos de ambos, estendendo a medida a empresas e parentes. Flávio não aderiu à proposta imediata, declarando que seu patrimônio – que inclui uma casa de R$ 10 milhões em Brasília – advém de seus salários e do exercício da advocacia privada, declarados à Receita Federal.
Outro ponto de atrito envolveu a titularidade de uma ilha em Angra dos Reis comprada pelo jogador Richarlison. Lula questionou como um processo paralisado na SPU avançou em cerca de duas semanas em favor do advogado Willer Tomaz, ligado a Flávio. O senador negou interferência no órgão e alegou vícios na documentação da compra feita pelo atleta.
Apostas, SUS e correção técnica na pós-transmissão
Ao tratar de regulação econômica, Flávio chamou o adversário de “pai do tigrinho”. Agências de verificação ressalvaram que as apostas de quota fixa foram legalizadas em 2018 e funcionaram sem regulação de salvaguardas financeiras até que regras de fiscalização, tributação e bloqueio de plataformas clandestinas fossem editadas na atual gestão. Lula também sustentou que planos defendidos pela oposição fragilizam o orçamento do SUS.
Na saída do estúdio, em entrevista ao vivo à jornalista Renata Lo Prete, Flávio declarou que a Amazônia vivia recordes históricos de desmatamento em outubro de 2026. A jornalista fez uma correção técnica no ar, esclarecendo que o senador citava dados de focos de queimada ligados à estiagem como se fossem taxa de supressão vegetal, enquanto os índices oficiais consolidados apontavam queda no desmatamento.
Flávio Bolsonaro e o histórico de controvérsias, investigações e questionamentos públicos
Contexto – Da suspeita de rachadinha às apurações sobre o financiamento do filme Dark Horse, passando por operações imobiliárias, relações com personagens ligados a milícias e propostas legislativas controversas, a trajetória de Flávio Bolsonaro reúne episódios que suscitaram questionamentos políticos, financeiros e judiciais. A análise exige distinguir suspeitas investigadas, decisões judiciais e posições políticas contestadas.
- Rachadinha e Fabrício Queiroz: O caso veio à tona após relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificarem movimentações atípicas de aproximadamente R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) suspeitou que funcionários do gabinete devolvessem parte dos salários e que os recursos fossem utilizados em despesas particulares do parlamentar e de sua família. Decisões do STF invalidaram provas importantes da investigação, comprometendo a acusação. Flávio não foi condenado criminalmente por esses fatos.
- Franquia da Kopenhagen: As movimentações financeiras ligadas à franquia da Kopenhagen também foram objeto de questionamentos. Reportagens sobre as apurações mencionaram 1.512 depósitos e valores de R$ 1,6 milhão, além de possíveis discrepâncias entre faturamento, registros bancários e transferências para contas pessoais. A hipótese investigativa envolveu a origem e a destinação dos recursos. Os números e as alegações precisam ser confrontados com os documentos originais, pois movimentações atípicas não comprovam, isoladamente, lavagem de dinheiro.
- Imóveis e pagamentos em dinheiro vivo: Negociações imobiliárias atribuídas ao senador foram questionadas por envolverem pagamentos em espécie, diferenças entre valores declarados e estimativas de mercado e revendas com ganhos expressivos. Entre os episódios noticiados estão operações na Barra da Tijuca e em Copacabana, no Rio de Janeiro. As suspeitas exigem análise individual das transações: discrepâncias de preços, por si sós, não demonstram irregularidade criminal.
- Filme Dark Horse e Daniel Vorcaro: Em 2026, o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro tornou-se objeto de investigação da Polícia Federal. Mensagens e documentos examinados pelos investigadores indicaram negociações diretas entre Flávio e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para captar recursos destinados à produção. As informações divulgadas mencionaram diferentes valores para o financiamento e remessas internacionais por meio da empresa Entre Investimentos e do fundo Havengate Development, nos Estados Unidos. A PF investiga a origem, a circulação e a destinação dos recursos, além de possíveis irregularidades financeiras. Em outubro, solicitou a prorrogação do inquérito por mais 90 dias. Flávio afirma que buscou patrocínio privado para uma produção cinematográfica e nega irregularidades. A investigação não equivale a uma condenação.
- Relações políticas com personagens ligados a milícias: A passagem de Flávio pela Alerj foi marcada por controvérsias envolvendo homenagens e vínculos profissionais com pessoas relacionadas ao círculo do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado pelas autoridades como integrante de organizações criminosas. Em 2005, Flávio concedeu-lhe a Medalha Tiradentes. Também foram questionadas as contratações, em seu gabinete, de Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, ex-esposa de Adriano, e Raimunda Veras Magalhães, mãe dele. Os episódios alimentaram questionamentos sobre os critérios políticos adotados, mas não comprovam, por si sós, participação do senador em atividades criminosas.
- Emenda parlamentar e Robson Calixto, o “Peixe”: Reportagens apontaram que uma assessora do gabinete de Flávio teria intermediado, em 2023, uma emenda de aproximadamente R$ 200 mil para uma entidade esportiva da Zona Oeste do Rio, a pedido de Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, condenado pelo STF no caso relacionado aos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. O episódio suscitou questionamentos sobre a interlocução política na destinação de recursos públicos. A regularidade da emenda e eventual responsabilidade do senador devem ser avaliadas à luz dos documentos e das conclusões oficiais.
- PEC das Praias e patrimônio da União: Flávio esteve associado à discussão da PEC 39/2011, conhecida como PEC das Praias, que prevê mudanças na destinação de terrenos de marinha atualmente vinculados à União. A proposta provocou críticas de ambientalistas e gestores públicos, preocupados com possíveis efeitos sobre o acesso ao litoral, a proteção ambiental e a valorização imobiliária. Seus defensores argumentam que a medida pode facilitar a regularização fundiária. Trata-se de uma controvérsia legislativa, não de prova de irregularidade criminal.
- Cassinos, bingos e jogos de azar: O senador também participou da discussão sobre a legalização de cassinos, bingos e resorts integrados. Defensores da regulamentação apontam potencial de arrecadação, investimentos e geração de empregos; críticos alertam para riscos de lavagem de dinheiro, endividamento e dificuldades de fiscalização. A posição de Flávio pode ser examinada politicamente, mas a defesa da proposta não configura, por si só, escândalo criminal.
- Estados Unidos e minerais estratégicos: Em manifestações e articulações internacionais, Flávio defendeu a aproximação com os Estados Unidos e destacou o potencial brasileiro no fornecimento de minerais críticos e terras raras. A proposta suscita debate sobre soberania, dependência tecnológica e condições de exploração das riquezas nacionais. Para sustentar acusações de favorecimento indevido ou entrega de patrimônio, entretanto, é necessário apresentar documentos, acordos concretos e evidências verificáveis.
- Situação judicial e responsabilidade política: Os episódios envolvendo Flávio Bolsonaro têm naturezas distintas. No caso da rachadinha, decisões judiciais invalidaram provas relevantes, comprometendo a acusação; no caso Dark Horse, as apurações continuavam em andamento em outubro de 2026. As demais controvérsias envolvem questionamentos financeiros, relações políticas e posições legislativas que precisam ser avaliados individualmente. O escrutínio público não exige antecipar condenações, mas também não dispensa transparência. A análise responsável deve confrontar documentos, explicações e decisões judiciais, distinguindo responsabilidade política de responsabilidade criminal.
- Por caso de Política | Luís Carlos Nunes








