Encontrei no Rio a escritora Letícia Dornelles, que ganhou um concurso de 600 pessoas e foi a escolhida para ajudar Manoel Carlos a escrever a novela Por Amor, com certeza o maior texto de Maneco.
Fizemos a entrevista por vídeo e atravessou a madrugada desta noite de ontem para hoje.
Foi uma entrevista difícil para Letícia e, por muitas vezes, tivemos que dar um tempo para ela poder chorar a cada momento que se lembrava de cenas de Manoel Carlos e o carinho que ele teve por ela.
Fiz uma entrevista com poucas perguntas para que fosse de fácil leitura.
Os meus agradecimentos a Letícia Dornelles, que soube estar ao lado de Manoel Carlos no mais importante momento de sua vida.
1) Como você foi convidada para escrever “Por Amor” com Manoel Carlos?
Eu abandonei o jornalismo e me inscrevi na Oficina de Autores da TV Globo. Nunca tinha escrito um roteiro ou feito cursos. De 600 candidatos, 32 foram selecionados para um teste. E 12 classificados para a Oficina, que eliminava dois alunos a cada semana. Fui a única contratada. A direção artística da TV Globo elogiou o meu trabalho e disse que eu combinava muito com Manoel Carlos. Deram o meu roteiro para ele ler. Maneco queria uma colaboradora para a novela.
Lembro que era uma segunda-feira e eu assistia à Hebe na tv. O telefone tocou às 22h. Era Manoel Carlos. Conversamos longamente e ele me convidou para escrever com ele. Disse que tínhamos química. Assim se deu a minha estreia como novelista. No horário nobre da TV Globo e com um dos melhores autores da TV brasileira. Perguntei: “Como devo chamar o senhor? Manoel Carlos, seu Manoel, Maneco?” Ele: “Como você quiser”. Óbvio que quase não dormi de tanta felicidade. Fiquei pensando na minha estreia com o Maneco.

2) Como foi a experiência de estrear no horário nobre?
Trabalhamos muito. Em alguns dias, eu pensava que não suportaria o ritmo alucinante. Eram 45 páginas por dia, três vezes por semana. Eu escrevia três capítulos e Maneco os outros três. Dividimos a novela. Maneco escrevia durante o dia. E eu virava a noite escrevendo. Na manhã seguinte, a Globo tinha dois capítulos na produção. Era muito prazeroso escrever um texto e ouvir os comentários no mercado, na praia. Maneco foi uma escola. Uma pós-graduação de vida. Foi uma experiência emocionante e gratificante. Eu tentava imitar o jeito de Maneco escrever para que os atores não sentissem que era outro roteirista escrevendo. Ganhei dele um livro para entender os “emergentes da Barra”, um grupo de novos ricos que vinha do subúrbio e começava a despontar nas colunas sociais. Eram considerados bregas. Mas só se falava neles. Faziam de tudo para aparecer. Festas megalomaníacas.
Também ganhei livros de poesia escritos por Maneco. Ele adorava Fernando Pessoa. Mergulhei nos versos do poeta por causa dele. Quando acabou “Por Amor”, Maneco me enviou um lindo cartão de Natal com o recado: “Descanse. Nos veremos na próxima”. Trabalhei com outro autor. Em seguida, soube que Maneco tinha me reservado para “Laços de Família”.

3) Como era o autor?
Muito rigoroso. Atento aos detalhes. Ele gostava da minha disciplina e rapidez.
Estive com Maneco algumas vezes no apartamento dele, no Leblon. Ele convidava para um drink junto com a família. Maneco gostava de trocar ideias de maneira informal. Não havia tempo para reuniões. Maneco tinha dois gatos. E eu tenho medo de gatos. Ele brincou: “Estão presos. Se eu soubesse do seu medo, teria deixado soltos na sala. A melhor maneira de superar o medo é enfrentá-lo”.
4) Conte algo marcante.
Logo que começamos a trabalhar na trama, a minha avó Luiza faleceu. Maneco me disse: “Você acredita em vida espiritual, na eternidade. Então, chore, reze, sofra. Mas siga em frente porque tem uma novela para escrever”. Depois, eu soube que Maneco tinha perdido dois filhos. Ele nunca comentava sobre o assunto. Era uma espécie de tabu. Há poucos anos, o filho mais novo dele também morreu. Não é uma vida simples a de um homem que perde três filhos.
Maneco é um dos criadores do Fantástico. Um fio que nos liga. E Maneco também produziu e dirigiu a Família Trapo, quando ele fazia parte da Equipe A da TV Record, programa de humor com Jô Soares e Ronald Golias, de anos e anos atrás. Na Record, eu escrevi um especial de teleteatro em homenagem à Família Trapo. Outro fio que nos liga. Houve muita ciumeira por eu estrear em horário nobre e numa novela do Maneco. A TV é uma fábrica de sonhos, mas também de pesadelos. Agradeço cada dia pela experiência que tive. Vieram outras novelas. Com outros autores e também escrevi novelas e especiais sozinha. Mas “Por Amor” estará para sempre no meu coração como um dos momentos mais felizes da minha vida.















