POR SARAH IRFFI
O ano de 2026 – com o super El Niño que parece vir por aí – é um marco crítico para que o Brasil finalmente adote uma agenda climática com mais ação e menos promessas. Mas será que a sociedade está, de fato, preparada para participar deste processo? Mesmo para os otimistas, pesquisas recentes e estudos econômicos trazem dados perturbadores.
Somente seis em cada dez brasileiros reconhece a relação entre mudanças climáticas e a ação humana, ainda que nove em cada dez digam já ter sentido ao menos um efeito ou impacto das mudanças climáticas nas regiões onde vivem. Tais como chuvas fortes, ondas de calor, aumento no preço dos alimentos ou no valor da energia elétrica. Isso revela um preocupante índice de desinformação climática no país, ainda que toda a sociedade esteja pagando diariamente a conta.
Estudos econômicos do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (CICEF, 2026) estimam que o Brasil já perde mais de R$ 110 bilhões do PIB por ano devido a desastres climáticos. Sao recursos que poderiam financiar ações mais robustas em saúde, educação e transporte.
- Brasil enfrenta devastação e desinformação
- Desastres climáticos no Brasil aumentaram 460% em relação aos anos 1990
- Planeta está ficando sem tempo para evitar impactos da crise ambiental
Além disso, outro dado inquietante: em 2024, as verbas emergenciais em resposta a desastres, tais como a inundação da bacia do Rio Guaíba, no Rio Grande do Sul, foram quase dez vezes superiores aos investimentos em prevenção e preparação.
Isso é uma constatação de que, para além de desinformados, estamos despreparados para lidar com o “novo normal” climático. Que atuamos mais fortemente na recuperação do que na prevenção aos desastres.
O gasto climático do Governo Federal, embora tenha apresentado crescimento nos últimos dois anos, representou apenas 1% do orçamento total.
A revisão das prioridades de gestão e alocação orçamentária será determinante para que União, estados e municípios se prepararem para mitigar impactos, adaptar-se e promover desenvolvimento, com os recursos que dispõem.

Falta de unanimidade
Em um ano eleitoral, em que não é unânime para toda a população brasileira o que são as mudanças climáticas, seus impactos e o que cabe a cada um fazer, é fundamental disseminar informação.
Enchentes recorrentes, ondas de calor provocadas por fenômenos como o El Niño e secas cada vez mais severas deixaram de ser manchete pontual nos jornais para compor o dia a dia do cidadão nas grandes cidades e regiões metropolitanas.
Os estudos revelam ainda uma elevada crença dos brasileiros (34%) de que os governos poderiam contribuir mais para enfrentar as mudanças climáticas.
Vale ressaltar que a governança climática tem progredido, porém a um ritmo aquém da crescente intensidade e frequência de eventos extremos, como mostra o último Anuário Estadual de Mudanças Climáticas. O desafio está posto para todos. Para além dos governos, os próprios cidadãos podem contribuir.
E é aqui que reside o paradoxo. Apesar de três em cada quatro entrevistados afirmarem estar preocupados com as mudanças climáticas, 43% não mudaram nenhum hábito nos últimos doze meses. Isso inclui desde ações de redução de consumo de água e luz, separação do lixo ou até sua intenção de voto. Somente 35% dos respondentes já escolheram algum candidato por causa de sua proposta política em defesa do meio ambiente, ainda que 89% reconhecem às mudanças climáticas como uma ameaça real à vida no país.
Isso nos sinaliza, por um lado, que precisamos explicitar melhor resultados de estudos econômicos que correlacionem impactos das mudanças climáticas ao dia a dia do cidadão. Por outro, que não compete somente aos governos, ou outros atores, como a academia e o setor privado, debruçarem-se sobre o tema, se a população, a seu turno, não escolhe suas lideranças levando em consideração propostas de planos, programas e projetos de curto, médio e longo prazo que integrem a perspectiva climática à sua realidade local.
A mudança começa em cada um de nós, e o peso do tema “clima” nas eleições poderá ser determinante para mitigar os impactos e promover soluções nesta e para as próximas gerações.
Sarah Irffi – Coordenadora técnica do HUB de Economia e Clima, no Instituto Clima e Sociedade (iCS).
Este texto foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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