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Neste domingo, 26 de julho, o Viaduto Santa Ifigênia, um dos ícones da arquitetura paulistana, vai se transformar em passarela. É ali, no coração do centro histórico, onde Penha Maia mantém seu ateliê, que a estilista apresenta “Brutalismo: Corpo Urbano”, coleção que traduz em moda as formas, os volumes e as contradições de São Paulo.
A escolha do cenário é tão simbólica quanto as roupas. Inspirada pela verticalização da cidade, pela força do concreto e pela forma como as pessoas ocupam — ou disputam — espaço em meio à metrópole, a estilista faz do próprio centro uma extensão da coleção.
Paraibana radicada na capital paulista, Penha construiu uma trajetória reconhecida antes de criar sua marca autoral, dedicada à pesquisa de formas, volumes e materiais. Suas criações já vestiram artistas brasileiros e internacionais, chegaram ao tapete vermelho do Oscar e consolidaram seu nome como uma das vozes mais autorais da moda brasileira.
Às vésperas do desfile, conversei com Penha sobre a cidade que escolheu para viver, a importância de preservar uma identidade criativa e o papel da moda como ferramenta de reflexão. Confira a entrevista a seguir.
Sofia Patsch: Você saiu da Paraíba para construir sua carreira em São Paulo. O quanto o seu olhar sobre a cidade vem justamente de quem primeiro precisou observá-la antes de pertencer a ela?
Penha Maia: Tenho um olhar um tanto poético sobre São Paulo. Acho que essa inquietude da cidade tem muito a ver comigo e com a minha personalidade. Sou uma pessoa muito inquieta e acho incrível olhar São Paulo em movimento, com o caos, o barulho das buzinas, das sirenes… Tudo isso, para mim, traduz vida. É claro que existem os percalços, como em qualquer lugar, mas, no fim das contas, eu consigo enxergar beleza em SP.
SP: Você veste artistas, já esteve no tapete vermelho do Oscar e nas principais revistas de moda, mas nunca abriu mão de uma linguagem bastante autoral. Em algum momento decidiu que preferia ser reconhecida a ser facilmente compreendida?
PM: Acho que ser compreendido e ser reconhecido são duas coisas que caminham juntas. Quando um artista é compreendido, esse talvez seja o ponto mais alto do seu trabalho. Mas, para mim, o mais importante é preservar a identidade e manter o trabalho autoral. Você precisa fazer sua arte sem se preocupar se será compreendido ou reconhecido. Porque, no meu entendimento, quando essa preocupação passa a conduzir o processo, você deixa de ser artista.
SP: Seu trabalho costuma desafiar a ideia do que uma roupa deve ser. Você se considera uma estilista que faz arte ou uma artista que usa a moda como suporte?
PM: Nunca tinha pensado dessa forma, mas acredito que sou mais uma artista que usa a moda para fazer arte do que uma estilista que faz arte. A arte existe para provocar reflexão. Quando as pessoas olham para as minhas roupas, elas param, observam e imaginam diferentes possibilidades. Como não são roupas usuais do dia a dia, elas despertam perguntas. E, para mim, é exatamente isso que a arte faz.
SP: Você fala muito em ocupar espaço. Essa coleção fala apenas da arquitetura das cidades ou também do espaço que as mulheres ainda precisam conquistar?
PM: A coleção fala sobre arquitetura, formas e estruturas de diferentes estilos arquitetônicos, especialmente do brutalismo e da verticalização de São Paulo. Mas ela também fala sobre como nossos corpos reagem, sobrevivem e ocupam esse espaço. Por isso as formas são exageradas e arquitetônicas: elas chamam atenção para mostrar que estamos pedindo passagem, assim como a natureza, que insiste em sobreviver espremida entre o concreto.
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