Relógios de famosos viram alvo de réplicas cada vez mais fiéis

Relógios de famosos viram alvo de réplicas cada vez mais fiéisReprodução Instagram

Cristiano Ronaldo, Drake, Mark Wahlberg e Jay-Z estão entre as celebridades conhecidas pelo interesse por relógios de luxo. Nos pulsos desses famosos, modelos de casas como Rolex, Patek Philippe, Audemars Piguet e Richard Mille ultrapassam o universo dos colecionadores e se transformam também em objetos de desejo para milhões de seguidores.

A exposição ajuda a movimentar o interesse pela alta relojoaria, mas acompanha um problema que preocupa o mercado secundário: a circulação de falsificações visualmente cada vez mais sofisticadas. Conhecidas como “super réplicas”, algumas cópias reproduzem elementos externos com nível de detalhamento suficiente para dificultar a identificação por compradores sem conhecimento técnico.

Isso não significa, naturalmente, que os relógios usados pelas celebridades citadas sejam falsos. O fenômeno ocorre no sentido inverso: quanto mais desejada e reconhecida se torna uma referência, maior pode ser o interesse do mercado de falsificações em reproduzi-la.

Especialista Renan Bastos, especialista em alta relojoaria, explica como identificar sinais de falsificação em modelos que ganharam visibilidade com celebridadesAcervo pessoal

Para Renan Bastos, fundador e CEO da RC Crown e especialista no mercado internacional de relógios de luxo, a evolução das cópias tornou a procedência ainda mais importante na hora da compra.

“As falsificações deixaram de ser apenas cópias grosseiras. Hoje existem peças que visualmente podem parecer muito próximas de um relógio original para quem não conhece profundamente a referência. É justamente isso que torna a compra sem procedência tão arriscada.”

Uma fotografia já não é suficiente

O crescimento das negociações pela internet acrescentou uma dificuldade à compra de relógios usados. Fotografias em alta resolução podem mostrar caixa, mostrador, pulseira e acabamento, mas não necessariamente permitem verificar todos os elementos necessários para autenticar uma peça.

Segundo Renan Bastos, determinadas diferenças aparecem apenas quando o relógio é analisado com maior profundidade.

“Uma foto bonita não comprova autenticidade. Existem detalhes internos, números, componentes, acabamento e características específicas de cada referência que precisam ser analisados. Quanto maior o valor da peça, menos sentido faz assumir esse risco.”

O alerta ganha relevância diante dos valores envolvidos. Dependendo da marca, da referência, da raridade e da configuração, um relógio pode ser negociado por dezenas ou centenas de milhares de dólares no mercado secundário.

Preço muito abaixo do mercado pode ser um sinal de alerta

Encontrar uma peça abaixo do preço praticado por outros vendedores não significa necessariamente estar diante de uma falsificação. Condição, ano, documentação, necessidade de liquidez e configuração podem justificar diferenças importantes de valor.

O problema surge quando o desconto é grande demais e não existe uma explicação consistente.

“Se todo o mercado está negociando uma determinada referência dentro de uma faixa e aparece uma peça muito abaixo daquele valor, a primeira pergunta deveria ser por quê”, explica Renan Bastos.

Para ele, quanto maior a diferença, maior deve ser o nível de verificação.

“Pode existir uma explicação legítima, como condição, ausência de documentos ou necessidade de venda rápida. Mas quanto maior a diferença, maior deve ser o cuidado.”

Caixa e documentos também precisam ser verificados

Outro ponto que pode confundir compradores é a presença do chamado “full set”, expressão utilizada para relógios acompanhados de elementos como caixa e documentação.

Ter esses itens pode influenciar o valor e a liquidez da peça, mas não elimina a necessidade de autenticação. Documentos e acessórios também podem ser falsificados ou pertencer a outro relógio.

“Full set é importante para valor e liquidez, mas não é um certificado automático de autenticidade. O relógio precisa ser analisado como um conjunto. Não basta ter uma caixa e um cartão ao lado da peça”, afirma.

A análise deve considerar a compatibilidade entre números, documentos, características físicas e configuração original daquela referência.

Nem todo problema significa que o relógio inteiro seja falso

A complexidade aumenta porque a discussão não se resume à divisão entre relógios verdadeiros e falsificados. Uma peça autêntica pode ter recebido componentes que não correspondem à configuração original.

Mostradores substituídos, peças provenientes de outras referências ou modificações realizadas posteriormente podem afetar o interesse de colecionadores e o valor de revenda.

“Às vezes, o relógio não é simplesmente falso ou verdadeiro. Ele pode ter componentes que não correspondem à configuração original. Para o mercado profissional, isso faz uma diferença enorme”, explica Renan Bastos.

É nesse cenário que o histórico da peça passa a ter peso semelhante ao de sua aparência.

O problema pode aparecer somente na hora da revenda

Uma das situações mais delicadas ocorre quando a irregularidade não é identificada na compra. O proprietário pode utilizar o relógio durante anos e descobrir o problema somente quando decide vendê-lo.

Ao apresentar a peça a um profissional, podem surgir dúvidas sobre autenticidade, documentação, componentes ou modificações anteriores.

“Um dos piores cenários é a pessoa descobrir o problema apenas quando tenta transformar aquele relógio novamente em dinheiro. Nesse momento, ela percebe que aquilo que imaginava ter como patrimônio praticamente perdeu a liquidez”, afirma Renan Bastos.

Em relógios de alto valor, uma diferença aparentemente pequena pode representar um prejuízo expressivo.

Quem vende também faz parte da análise

No mercado secundário, verificar somente o relógio pode não ser suficiente. A reputação e o histórico do vendedor também entram na avaliação de risco.

Para Renan Bastos, saber quem está do outro lado da negociação é especialmente importante quando os valores são elevados.

“Quando você compra um relógio de alto valor, não está avaliando apenas a peça. Precisa avaliar quem está vendendo, há quanto tempo essa pessoa atua, qual é a reputação dela e se existe alguém responsável pela transação caso surja algum problema.”

A recomendação vale especialmente para ofertas recebidas por redes sociais, aplicativos de mensagens ou negociações particulares.

Pressa pode transformar oportunidade em prejuízo

Outro comportamento que merece atenção é a pressão para concluir rapidamente uma compra. Argumentos de que uma oferta desaparecerá imediatamente podem levar o comprador a reduzir etapas de verificação justamente quando deveria aumentá-las.

“Quando alguém pressiona dizendo que o preço só vale naquele momento ou que é preciso transferir imediatamente para não perder a oportunidade, o comprador precisa ter ainda mais cautela. Um bom negócio continua sendo bom depois que você verifica o que está comprando.”

Para reduzir riscos, Renan Bastos recomenda conhecer a faixa de preço da referência, pesquisar o histórico do vendedor, conferir documentação e procedência e recorrer a avaliação especializada quando necessário.

“Quando você está comprando uma peça que pode representar uma parte importante do seu patrimônio, não pode analisar apenas estética e preço. Procedência, autenticidade e reputação precisam entrar na mesma conta.”

Em um mercado impulsionado também pela exposição de relógios nos pulsos de atletas, músicos, atores e outras celebridades, distinguir desejo de oportunidade se tornou parte da compra. Antes de procurar uma peça semelhante àquela vista no pulso de um famoso, o desafio é mais básico: saber exatamente o que está sendo comprado.

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