Relógios milionários fazem parte do estilo de celebridades internacionais como Harry Kane, Drake e Ed Sheeran. Mas, por trás das peças que chamam atenção em eventos, shows e aparições públicas, existe um mercado que movimenta bilhões de dólares e no qual o prestígio de uma marca nem sempre significa facilidade para encontrar um comprador.
O mercado secundário de relógios movimentou US$ 10,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 37,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os números constam no relatório H1 2026 da EveryWatch, elaborado a partir de transações concluídas por 650 revendedores profissionais e 472 casas de leilão.
No total, foram comercializados 795 mil relógios, alta de 18,7% em quantidade. Embora o valor das vendas tenha crescido, os dados revelam diferenças importantes entre marcas e modelos, especialmente quando o assunto é a velocidade de revenda.
Para Renan Bastos, CEO da RC Crown e especialista no mercado de relógios de luxo, compreender a procura por determinada peça pode ser mais importante do que simplesmente observar seu preço ou sua exclusividade.
O que os relógios dos famosos revelam sobre o mercado de luxo? Celebridades como Drake, Ed Sheeran e Harry Kane ajudam a manter os relógios de alta relojoaria em evidência. As peças aparecem em premiações, eventos esportivos e apresentações, despertando o interesse de admiradores por marcas e modelos de alto valor.
Entretanto, a visibilidade de um relógio no pulso de uma personalidade não significa, necessariamente, que ele terá maior liquidez no mercado secundário.
Na prática, a facilidade de revenda depende de fatores como disponibilidade, procura, estado de conservação, procedência e preço praticado.
Para Renan, a análise precisa começar pelo comportamento dos compradores e vendedores.
“Eu não quero comprar um relógio simplesmente porque acho que ele é bom. Quero entender quantas pessoas estão tentando comprar aquela referência, quantas estão tentando vender e qual é a disponibilidade real naquele momento.”
O empresário explica, assim, por que uma peça desejada por colecionadores pode apresentar desempenho comercial diferente de outro modelo igualmente prestigiado.
Rolex, Tudor e Cartier: quais relógios vendem mais rápido? O relatório da EveryWatch mostra que o mercado secundário registrou crescimento na taxa de giro por valor, indicador que mede a proporção do estoque anunciado efetivamente vendida durante o período.
O índice passou de 46% para 55%. Ao mesmo tempo, o prazo mediano de venda aumentou de 39 para 43 dias, sinalizando que a expansão do mercado não ocorreu de maneira uniforme.
Entre as marcas analisadas, a Tudor apresentou taxa de giro de 62%, com prazo mediano de venda de 30 dias.
Já Omega, Cartier e Rolex registraram taxas entre 50% e 53%, com prazos de 32 a 34 dias.
Na outra ponta, a Patek Philippe apresentou giro de 40% e prazo mediano de 52 dias. A Audemars Piguet registrou 37% e 49 dias, enquanto a Blancpain teve giro de 22%, com prazo de 82 dias.
Os resultados mostram que uma marca de maior prestígio ou preço elevado não necessariamente apresenta a revenda mais rápida.
Quando a análise considera modelos específicos, o Tudor Black Bay aparece com taxa de giro de 95%, seguido pelo Rolex GMT-Master II, com 89%, e pelo Rolex Submariner, com 88%.
Esses percentuais não representam rentabilidade. Um relógio pode ser vendido rapidamente e gerar uma margem pequena, enquanto outro pode demorar mais tempo e proporcionar um resultado financeiro diferente.
Por que alguns relógios raros encontram compradores mais rápido? A exclusividade costuma ser uma das características mais valorizadas na alta relojoaria. Entretanto, uma produção limitada não garante, por si só, que determinado relógio será fácil de revender.
O relatório destaca o desempenho da F.P. Journe, fabricante que registrou crescimento de 197% nas vendas, com 608 relógios comercializados no primeiro semestre de 2026.
Aproximadamente 80% do valor anunciado da marca foi convertido em vendas, segundo a EveryWatch.
O resultado indica como uma oferta restrita pode favorecer a liquidez quando existe procura suficiente.
Por outro lado, um modelo raro com poucos compradores interessados pode permanecer mais tempo no mercado.
Para revendedores, a questão não está apenas em encontrar peças exclusivas, mas em identificar se existe demanda real por elas.
Rolex certificado movimenta US$ 385 milhões Outro destaque do levantamento é o crescimento do mercado de relógios seminovos certificados pela própria fabricante.
O programa Rolex Certified Pre-Owned (CPO) movimentou US$ 385,4 milhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 101% em relação ao período comparado.
A certificação busca oferecer garantias relacionadas à autenticidade e às condições das peças comercializadas dentro do programa.
Em negociações que envolvem valores elevados, a confiança pode influenciar a decisão do comprador.
A procedência, o histórico de manutenção e a documentação também podem fazer diferença na percepção de segurança durante uma negociação.
Ainda assim, a certificação não garante valorização futura nem determina o prazo em que um relógio será vendido.
Tecnologia começa a mudar a revenda de relógios de luxo Durante muitos anos, a negociação de relógios de alto padrão dependeu principalmente da experiência dos profissionais e das relações construídas com colecionadores e fornecedores.
Atualmente, plataformas de análise de mercado permitem acompanhar dados sobre vendas efetivamente concluídas, disponibilidade e comportamento de diferentes referências.
Para Renan Bastos, essas ferramentas não substituem o conhecimento de quem atua no setor, mas ajudam a fundamentar as decisões comerciais.
“O feeling de um dealer que está há 20 anos no mercado tem um valor enorme. A diferença é que agora eu consigo colocar dados ao lado desse feeling.”
A comparação entre preços anunciados e valores efetivamente pagos também ganha importância.
Um relógio pode aparecer à venda por determinado preço durante meses sem que isso signifique que existam compradores dispostos a pagar aquele valor.
Por isso, informações sobre negociações concluídas oferecem uma perspectiva diferente daquela encontrada apenas nos anúncios.
Por que vender rápido pode ser mais importante do que lucrar alto? No mercado secundário, cada relógio adquirido para revenda representa dinheiro comprometido até que um comprador seja encontrado.
Quanto maior o tempo de permanência da peça no estoque, maior pode ser o impacto sobre a disponibilidade de capital para novas negociações.
Por esse motivo, alguns revendedores preferem trabalhar com margens menores e realizar um número maior de operações.
É a estratégia descrita por Renan Bastos na RC Crown.
“Nosso foco é giro. A gente ganha na velocidade e no volume, não na margem de uma venda só.”
O modelo exige atenção ao preço de aquisição, à demanda e aos custos envolvidos em cada transação.
A velocidade, entretanto, não elimina os riscos. Uma venda rápida não significa necessariamente lucro, assim como a valorização de um relógio não pode ser considerada garantida.
Para Renan, o mercado de alta relojoaria reúne desejo, exclusividade e decisões financeiras que vão muito além da aparência das peças.
“Quando você coloca um relógio no pulso, você está colocando dinheiro no pulso.”
A observação ajuda a explicar por que relógios associados ao universo das celebridades também despertam interesse de colecionadores e comerciantes. Mais do que o nome gravado no mostrador, o comportamento da oferta e da procura é o que ajuda a determinar a facilidade de revenda.





